Artesanato de palavras no tempo da Letraset

Luiz Valério P. Trindade
5 min readJan 12, 2024
Composição de imagens de edições do catálogo e de cartelas com letras transferíveis

Alguns anos atrás escrevi um texto abordando o tópico da transição da fotografia analógica para a digital. Naquele texto, eu falo de minhas experiências como fotógrafo amador em minha primeira viagem ao exterior no início os anos 1990, e como era difícil ter de escolher o que fotografar. Isso porque, os rolos de filmes que eu havia à disposição eram limitados e também porque revelar uma grande quantidade de fotos envolvia uma despesa considerável.

Pois bem, dito isso, mais ou menos na mesma época (ou seja, final dos anos 1980 e início dos anos 1990), eu desenvolvia uma atividade embrionária de designer gráfico freelancer. Na verdade, nem sei dizer assim com tanta precisão se naquela época já se usava essa denominação. Mas, enfim, essa era a atividade.

Os projetos gráficos que eu desenvolvia compreendiam, principalmente, desenho de cartões de felicitações (aniversário, casamento, colação de grau, datas comemorativas como Dia dos Namorados, Dia das Mães, cartões com motivos sentimentais, etc.), cartões de visitas e pequenos anúncios publicitários sob encomenda. Eu era bastante jovem e era uma atividade que me trazia enorme satisfação pessoal (embora nenhum ganho financeiro expressivo), porque as pessoas apreciavam muito meu trabalho.

Não era uma produção em escala industrial por assim dizer. Na verdade, era 100% artesanal e feita à mão de forma individualizada e customizada. Tanto é verdade que me restaram muito poucas amostras daquele trabalho já que na época não havia a possibilidade de escanear ou fazer fotos digitais para registrar tudo de forma instantânea como atualmente. Dependendo do nível de complexidade do trabalho, eu costumava fazê-lo em duplicidade somente para poder montar um pequeno portfólio. Mas, não era possível adotar esta prática em todos os projetos.

Nesse contexto, entrava em cena um produto que se chamava Letraset® (vide figure ilustrativa sob o título desse texto) e que, para a época pré-programas de design gráfico em computador, era absolutamente revolucionário e fenomenal, sobretudo por conta do resultado gráfico final de alto nível.

Havia um robusto catálogo impresso em acabamento espiral contendo toda a vasta gama de fontes disponíveis, exemplos de projetos gráficos, pantone com palheta de cores e mais uma ampla variedade de elementos gráficos complementares (por exemplo, árvores e vegetações, silhueta e rostos de pessoas, automóveis, trens, aviões, móveis, animais, etc.).

Elementos gráficos complementares

E todos esses itens apresentados no catálogo eram disponíveis na forma de cartelas transferíveis a seco (ou decalques) onde bastava sobrepor o elemento desejado sobre a superfície do projeto (no meu caso, o meio era sempre papel, mas poderia ser outro tipo de superfície como madeira, metal, etc.) e rabiscá-lo com um lápis, caneta esferográfica ou outro tipo de objeto que permitisse realizar o processo de transferência com a precisão necessária. Guardada as devidas proporções, esse processo era mais ou menos como uma “raspadinha” de loterias instantâneas.

Mas, não obstante o resultado gráfico ser excepcional por se tratar de um recurso passível de ser utilizado em trabalhos artesanais como os que eu desenvolvia, tinham também algumas pequenas dificuldades (embora elas não desabonassem a solução como um todo).

Para compor um texto longo, por exemplo, era preciso adquirir diversas cartelas de letras transferíveis. Isso, sem falar da necessidade de combinação entre letras maiúsculas e minúsculas, que também demandava adquirir algumas cartelas extras.

Naturalmente, isso elevava bastante o custo dos projetos, já que as cartelas não eram tão baratas assim. Além disso, enquanto as vogais e algumas consonantes eram devidamente consumidas, outras de uso mais limitado (por exemplo, K, Y, W, X e Z) sobravam aos montes. Sem falar nos números e carcteres especiais.

Por fim, às vezes, a transferência falhava e ficava faltando um pedaço do elemento e era um pouco delicado para consertar no projeto, comprometendo ligeiramente o resultado final se não fosse feito com o devido cuidado e precisão quase cirúrgica.

Cartelas de letras transferíveis

Mas, em linhas gerais, era um produto fantástico que, seguramente, marcou mais de uma geração de designers gráficos no Brasil e internacionalmente, já que a empresa era originária da Inglaterra e os produtos Letraset® eram encontrados em diversos mercados. E por falar nisso, a empresa Kingsnorth Industrial State, que criou o produto, foi fundada em 1959, encerrou suas atividades no início de 2013 e em outubro do mesmo ano, os últimos 31 funcionários foram dispensados, e tudo o que havia restado da empresa foi leiloado via internet.

Bem, dito isso, em minha curta “carreira” de designer gráfico cheguei a possuir e utilizar duas edições do catálogo Letraset® e me recordo também da ansiedade e expectativa geradas anualmente diante do eventual lançamento de uma nova edição com mais novidades, outras fontes ou elementos complementares inovadores.

Enfim, são recordações incríveis e sei que quem teve a (feliz) oportunidade de utilizar o produto é capaz de compreender com muita clareza o que expus e conferir a justa dimensão.

Com o advento e crescente popularização de avançados programas de design gráfico e tratamento de imagens (por exemplo, Photoshop, Adobe Illustrator, Corel Draw, entre muitos outros), com recursos cada vez mais sofisticados, o uso da Letraset® foi declinando vertiginosamente e, obviamente, nem tampouco seu icônico catálogo viu novas edições. Eventualmente, se a empresa tivesse migrado para a computação gráfica, talvez ainda estivesse em operação, mas jamais saberemos. Fica somente no campo da hipótese.

Como apenas mencionado, minha “carreira” de designer gráfico foi muito curta e por isso a escrevo entre aspas. Isso, sobretudo porque após ingressar na universidade, minha vida tomou outros rumos bem distintos do design gráfico. Assim, creio que atualmente, o uso de letras transferíveis deve ser bem restrito já que, mesmo trabalhando de forma artesanal como eu costumava fazê-lo no passado, os trabalhos podem ser realizados em computador e outros dispositivos digitais como tablets.

De qualquer forma, não se trata, no entanto, de um sentimento puramente saudosista do tipo “antigamente era melhor”, mas sim de prestar uma devida (e singela) homenagem e reconhecimento ao caráter inovador de uma linha de produtos que marcou época e fez a diferença no trabalho de incontáveis profissionais (sejam eles/elas amadores como eu naquela ocasião e bem como tantos/as outros/as muito experientes).

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